"Descrito por alguns escritores, o ato sexual é uma fraude. A metáfora os põe a perder. Como levar a sério os 'mastros', 'as espadas', 'os vales húmidos' e as 'florestas' de que lançam mão para referir-se à genitália?"
Marçal Aquino, em "O Amor e outros objectos pontiagudos".

Nunca chamei meu pênis de nome próprio. Ele não é cachorro.
Muito menos tenho personalidade dividida para que ele pense por mim. Não combina batizar o pênis com nome masculino. Não soa másculo. É o equivalente a chamar um outro homem na cama.
Já imaginaram se eu o nomeasse de Júnior. Coitado de quem é Júnior em primeiro lugar. O papo com a menina seria mais ou menos assim: "Não conversa com o meu Júnior". Ou "meu Júnior está com saudades de tuas". É de estrangular a excitação.
Na primeira zanga do casal, escaparia da responsabilidade com uma terceira pessoa: "Meu Júnior não concorda contigo, está magoado, ele vai embora".
Quando tentamos fugir do sexo, ficamos ainda mais pornográficos. Quando tentamos disfarçar as palavras sexuais, acabamos ainda mais explícitos. A poesia no sexo serve para chamar atenção do que escondemos.
Toda metáfora sacrifica a naturalidade.
Cona é cona, caralho é caralho, cu é cu, não há o que inventar. Sexo é sexo. A simplicidade está na combinação. Quem tenta encontrar outra expressão mais bonita, florear, é involuntariamente grotesco. E grosseiro.
Em roda de conversa, ouvi amigas e amigos comentarem que é uma delícia colocar sorvete ou marshmallow para chupar. Sorvete eu tomo na taça. Não pretendo infantilizar a boca para diminuir a culpa. O que me agrada é o gosto natural, a química, o cheiro do corpo.
Além da comicidade, existe a vergonha da dupla interpretação. O constrangimento de sugerir o que não se esperava.
Não consigo chamar a cona de gruta. Gruta costuma ter uma santa. Gruta do amor é mais terrível: uma procissão de santas. Os seus derivados grota e greta não perdoam. (...) é retornar à Idade Média.
Não consigo chamar a cona de grelo: lembra-me churrasco e família. "Salsichão no grelo", bah!
Não consigo chamar a cona de buraco negro, nem preciso externar o motivo. Triângulo das Bermudas é para desaparecer, deixe um bilhete de suicida por prevenção.
Não consigo chamar a cona de gaveta, é não sair do escritório.
Não consigo chamar a cona de perereca, a verei saltando freneticamente. Qualquer outro animal não ajuda o vocabulário, como aranha. Eu que tenho dificuldade com o erre, teria que repetir "alanha, alanha, alanha!".
Não consigo chamar a cona de estojo (Lápis no estojo é de chorar).
Não consigo chamar a cona de rachadura e fenda, evoca infiltração.
Não consigo chamar a cona de mata, parece que ela não está depilada há séculos.
Não consigo chamar de xota, assemelha à dança típica. Ou montanha úmida, é avisar que ela está gorda. Cuidado com a avalanche.
Não consigo chamar de concha e canoa antes de espiar se há um salva-vidas de plantão para não morrer afogado.
Não consigo chamar o meu caralho de mastro, de vara e de cassetete. Não tenho fantasia militar. Vá que desembainhe a espada e seja um punhal.
Os efeitos líricos diminuem a grandeza do despojamento. Vira piada: tente comparar os seios com melões. E logo com uma mulher que recém fez cirurgia para diminuir o peito. Ou com laranjas e pêras. Só falta pesar a fruta.
As alegorias complicam a nudez, a linguagem pode vestir os amantes no momento em que estavam despidos.
O pudor na linguagem provoca a maior falta de pudor.
Alterado.**
De Fabrício Carpinejar
De Fabrício Carpinejar
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