10 outubro 2007

O SEXO SÓ ACABA ENTRE AMIGOS


As fantasias nas mulheres são normais. Desde que elas não se isolem e sejam capazes de fazerem com seus maridos, namorados e companheiros.

Assim como não existe problema dos homens fantasiarem com desconhecidas e guardar a colecção de revistas pornográficas e assistir vídeos pornos.

Imaginar não é trair.

No livro "Sexo no Cativeiro", da americana Esther Perel, da editora Objectiva. Ela comenta que: fantasiar com outros homens e mulheres é sadio no casamento. O terceiro personagem não pode ser reprimido. Se ele é censurado e castigado, o risco da traição aumenta. No momento em que o marido e a esposa não podem mais sonhar, elas vão fugir da realidade.

O terceiro personagem é a manifestação do nosso desejo que equilibra o relacionamento e o renova. São emanações do passado e do quotidiano: o namorado da escola, a linda menina do supermercado, o professor do quinto ano.

Fidelidade não é submissão, é independência.

O casal perfeito não são dois, porém três: ela, ele e a fantasia.

Sobre o casamento, não é o tempo que o consolida. Se existe crise dos dez, dos quinze anos, existe crise do primeiro e do segundo dia. Tudo será crise.

O casamento pode passar por vinte anos, sem perder a autenticidade. Por dois meses e já não oferecer excitação. Existem mulheres que amaram loucamente, viveram uma década com seu companheiro, e num abraço descobriram que não amavam mais. Um abraço. Não houve nada de concreto para terminar o relacionamento, assim como não havia nenhum interesse objectivo para iniciar. Não houve nenhum motivo explícito, foi um abraço. A química estava desfeita. Até o cheiro da pessoa mudou. Até o jeito de apertar os braços. O amor também cansa. E cansa porque se acostumou a ser mais amizade do que amor, mais concordância do que implicância.

O beijo vem sem as pernas e torna-se selo. As conversas passam a ser feitas no mesmo tom. O mesmo tom do café da manhã, do almoço, do jantar. O tom de fim de dia.

Amizade é linda, só que pacifica a veemência da descoberta. Amizade é como se fosse uma enorme claridade de noite. Amizade é um dia sem noite na relação. É sol e a insónia das coisas certas, fixas e conhecidas. É não ter mistério. É seguir mais um dia como a repetição de ontem.

Existe uma armadilha, no casamento: queremos a segurança, mas não podemos dissipar a insegurança. A medida é encontrar uma segurança insegura. Uma segurança atenta, ansiosa, nervosa. Dizer: "ele está aqui comigo, mas ele não sou eu. Não me pertence, nem eu".

Por isso, o amor é uma trabalheira. Reconquistar quando não se espera, seduzir quando se está distraído.

Para a história continuar, não se deve aceitar a amizade como base. Não casar com ninguém pela amizade. Sexo é a permanência da estranheza dentro da intimidade. Não esgotem a vontade de se conhecerem, vestindo-se de enfermeira ou de policia. Intrigar, amadurecer, fazer pensar o desejo e repor o valor de cada acto pelo espanto.

Não se deve matar a estranheza entre o casal. O ardor das perguntas.

Muitos casais compensam. Compensam os defeitos um do outro. Compensam os sacrifícios um do outro. Compensam o voluntarismo no trabalho um do outro. Compensam os filhos um do outro. Compensar não é compreender. Compreender é nunca compreender de todo, é assustar-se com a resposta - para realmente ouvi-la. Confio cada vez mais que amor não é reconhecimento, e sim desconhecimento para reconhecer de novo. O amor é amnésia diante do excesso de memória que traz a amizade. Prevenir-se da gentileza automática e da posse.

Consultório Poético de Fabrício Carpinejar

1 comentário:

Crónica disse...

Gostei e acho que concordo com este artigo

"Fidelidade não é submissão, é independência."

Sim ai tocou-me

Crónica