18 outubro 2007

Como ser mulher, hoje em dia!


Só te estou a dizer isto para teu bem. Não me julgues mal, eu quero o que é melhor para ti. É uma vergonha uma rapariga andar aí nesses preparos. Tens que te dar com gente séria. E depois, o que é que as pessoas vão dizer?
Dá-te com gente séria. Gente da tua faculdade. Gente que fode por dinheiro, e que casa para arranjar emprego. Que tem amigos para ter trabalho. Que peida para dentro. Que nunca ri. Que nunca se riu. Porque os outros.
Diz-me com quem andas e eu dir-te-ei quem és. Ou seja, tens que te dar com as pessoas “boas”, para depois toda a gente achar que tu também és boa. Percebes. Não interessa se não são teus amigos, não interessa se não os amas (não interessa se são pessoas sem talento, sem futuro, medíocres, sem coragem para viver, se daqui a 50 anos ninguém vai saber quem eles são). O que interessa é que são bem vistos.
Tens que te dar bem com toda a gente. Com essa gente. Com gente de fato e gravata que tem vinte anos mas quer ter 40. Para depois arranjares um trabalho decente (de merda) e seres bem vista. Ser bem vista. Pelos outros.
Não podemos dizer isto porque os outros, não podemos ser felizes porque os outros. Vamos foder uma pequena hipótese que tínhamos de ter uma vida porque os outros.
Vivemos uma vida em função dos outros, para depois perceber, que os outros se estão nas tintas para nós. Estão demasiado ocupados a pensar o que é que nós achamos deles.

Uma rapariga não pode, uma rapariga não deve. Dizer asneiras, contar piadas, e não ter namorado.
Ou se tiveres um namorado. É melhor ele chamar-se Pedro, ter uma pila pequena e ser má pessoa. Do que chamar-se Ruben, ser um anjo, e amar-te.
È super prestigiante, entre as tuas amigas, dizeres que tens um namorado chamado Pedro Maria Orey Vasconcellos. Mesmo que, se pensarmos bem nisso, a coisa em si não tem mérito nenhum, porque tu não fizeste nada. Nada. Tu não fizeste nada.

Tira o curso, mesmo que sejas infeliz e que nunca tenhas querido fazer o que fazes na vida. Mesmo que percas anos da tua existência como se tivesses várias, para depois olhar para trás e chorar como eu e como toda a gente. Tem que ser, porque a vida é um fatalismo. Nós não podemos decidir nada, são os outros que decidem por nós.
Ao fim cheguei da minha vida e fiz o que uma mulher deve fazer: casar, ter filhos. Sou muito infeliz e frustrada, mas não faz mal: pelo menos sou igual aos outros.

Tens que ser bonita. Mas não demasiado, porque é mau dar nas vistas. O suficiente. E séria também. De preferência, sem opinião formada sobre o mundo que te rodeia, o então com uma igual à dos outros. Para depois um homem te querer.
Porque no fundo nada mudou desde o século XIII neste mundo: o objectivo de uma mulher continua a ser agradar aos homens.

E se tu não casas e não tens filhos é porque algo de muito errado se passa contigo. É porque és esquisita. E é mau ser esquisita, porque é mau ser diferente. É muito mau ser diferente. Porque temos medo de estar sozinhos, e por isso temos que fazer tudo como os outros.
Não interessa se o teu namorado é um gordo burro feio sem personalidade. Pelo menos tens um namorado.
Não interessa se os teus amigos são uns sacanas sem futuro sem opinião e sem interesse. Pelo menos não andas sozinha.
Mas no fim nada disso conta (mãe, tens 50 anos, e se nunca tivesses nascido o mundo hoje era completamente igual), e tudo o que fizemos para dissimular as nossas diferenças, os esforços que fizemos para não sobressair foram vãos. Porque os outros nem sequer existem, porque os outros somos nós.

A lei é a mesma para todos. Quer dizer, depende da lei.

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