29 agosto 2007

De Madeira a Paulino: o mundo dos planetas


Saiu Madeira e entrou Paulino como Procurador-Geral da República.
Quando assim acontece nas coisas da vida, é de regra pensar-se que aconteceu uma revolução. E nesse interim, condenado é o saído, ovacionado o entrado. Critica-se naquele o deixa-andar, aclama-se neste a expectativa do começa-a-mudar. O mundo é, afinal, a apetência das madrugadas, a busca da purificação.
Quando penso em Joaquim Madeira, borbulha em mim uma imagem fixa: a de um missionário, honesto, íntegro, lutando entre a consciência que o obrigava a actuar e a mão do poder que o mandava indirectamente parar. Quando um dia Madeira disse na Assembleia da República que precisava de auxílio político para singrar, mais não fez do que enunciar dramaticamente a encruzilhada em que se encontrava: a de um homem honesto manietado pelo poder. Ele sabia e sabe pela alma que ninguém está acima da lei, mas também sabia e sabe pela lógica que existem planetas onde o poder está sempre acima da lei.
Entrou Augusto Paulino, hoje nomeado, amanhã a tomar posse. Quando penso em Paulino, penso num hábil e cauteloso jurista que foi produzido pelos mídia, um jurista que ama ser falado, um jurista digamos que cénico. Muito mais do que no reinado de Madeira, a PGR estará agora bem mais em cena, bem mais na ribalta. Ao discurso de impotência de Madeira, responderá Paulino com um optimismo temperado por uma forte frequentação dos mídia e pelo charme das intervenções calmas, proteicas, entorpecentes.
Lá onde Madeira se sentia mal na figura de um representante do poder, Paulino sentir-se-á bem. Tenho dificuldade em ver Madeira a jogar futebol: ele é demasiado missionário. Mas sei que Paulino joga bem futebol: jamais desdenharia marcar o golo.
Dentro da viatura do poder, Madeira não se permitiria rir. Mas Paulino rir-se-á sempre, calma e prazenteiramente.
Quando for a vez de Paulino passar o testemunho a outro - o que, creio, levará tempo -, analisarei então o planeta de Paulino. É sensato, não acham?

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