Páginas

24 maio 2007

Construção da relação II


Como toda a gente, disponho apenas de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de mim própria, que é o meio mais difícil e perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos outros, que conseguem quase sempre esconder-nos os seus segredos ou fazer-nos crer que os têm; e os livros, com os erros particulares de perspectiva que se escondem nas suas entrelinhas.” – Foi Marguerith Yourcenar quem deixou escrito algures.

Concordo que, cada um, enquanto objecto de conhecimento de si próprio, constitui uma amostra demasiado exígua para permitir grandes generalizações no que concerne o conhecimento do homem. E, nesse sentido,
“cada caso é um caso”. Mas também não é menos verdade que, a menos que se trate de “avis rara”, existe um denominador comum de comportamentos que caracterizam e identificam a espécie.

Serve todo este latim para fundamentar duas teses:

A primeira é que, salvo os condicionamentos de carácter cultural, os comportamentos humanos – nomeadamente o comportamento sexual – obedecem, no que é essencial, a uma matriz comum. E as diferenciações estabelecem-se no que considero o plano do secundário. No que respeita o sexo existe quem goste mais desta ou daquela prática, em vez de outra, pela mesma ordem de razões que existe quem goste mais de laranja do que de banana. Porquê? – porque sim. Ou mesmo quem não goste da prática “X” ou da prática “Y” pela mesma razão de que não aprecia o vinagre ou a pimenta, como temperos. Porquê? – porque sim.

A segunda tese é que, parece-me ter-se criado uma retórica em torno da questão do sexo, extremamente semelhante ao que acontece na política: uma coisa são as declarações públicas, o discurso oficial e a teoria, outra coisa é a prática.

Por mim, sou dos que não gostam de tudo. – Quer em matéria de sexo quer em todos os outros aspectos da vida. Porque haveria de acontecer de modo diferente nuns e noutros casos? – E, por isso, sou dos que não fazem tudo.

Mário

Sem comentários: