30 outubro 2006

Teorias


Eu desconfio de teorias. Mas crio as minhas para desconfiar ainda mais.

Uma delas é a da mulher-colar e da mulher-brinco, duas formas femininas de organizar a vida.

A mulher-colar é mais caseira, procura a unidade. Não é dispersiva, não costuma ter vida dupla, tenta manter uma coerência absoluta entre o trabalho, a casa, o sexo e os filhos (ou os animais). Pretende ter a história sob o controle, o que a atormenta. Fica irritada quando escapa as rédeas da janela. Toma a posição extremista: ou tudo ou nada. Percebe que o nada - bem acompanhada - não é tão ruim assim. Oscila entre a posição de vítima e algoz. Cuidado: quando é vítima é algoz. Adora ser surpreendida. O colar é despir as costas. Como não é posto pela frente, carrega o sopro de um segredo, o leque de um ritual, o vento envidraçado.

A mulher-colar se arrepia toda na nuca. Os beijos antecedem os lábios.

Sua protagonista guarda uma inclinação para transparência. A mulher-colar dificilmente pensará antes de falar - pensará e falará simultaneamente. Pensará enquanto fala. Será rude caso necessário e não voltará atrás. Pedir desculpa é um tormento para ela. Enleia-se em dizer obrigado. De igual modo, será verdadeira para o elogio. Com tal contundência, que todo elogio da mulher-colar se assemelha a um pedido de casamento. Perigoso discernir entre a sedução e a carência.

Colar é mais complicado de perder. Não há como extraviar, ou fingir que ele não existe. Não há como esquecer que está se usando. Uma mulher-colar não aceita metades, suplências e realidades provisórias. É possessiva, com uma teimosia implacável de menina mimada. Mas não é uma menina mimada, é uma menina independente.

Domina o corpo pelo pescoço. Exige que seja olhada com a veemência nos olhos. Mostrará os seios com ambição. O colar é primo da coleira. Com a diferença: quem o usa manda, não é mandado. Os brincos são complementos. Secundários, discretos e dispensáveis. Aparecem para chamar atenção do colar. Como o colar é exagerado, dispensará os anéis e as pulseiras. Ela se julga importante ao escolher.

A mulher-colar tem resistência para abdicar do passado. As pedras estão muito próximas da garganta, lembram as palavras ásperas obrigadas a engolir. Ela põe o colar como quem separa uma voz para ouvir sozinha. O colar é o herdeiro do escapulário. Ao vestir um colar (colar se veste, não é um adereço), a mulher está se ligando aos antepassados: avó, mãe, filha. A mulher-colar mentirá para proteger alguma verdade, em último caso. Não mentirá para se proteger. É constante em suas mudanças. Muda para continuar igual e mais confortável. Abusará da cor escura nas unhas, para exibir personalidade forte. Não vai se influenciar com a opinião alheia, porém fica abalada com sua autocrítica.

A mulher-brinco é de outra ordem. Mais expansiva e volúvel. Ela valoriza os detalhes. As etiquetas. As vogais. Os talos das frutas. Sofre uma inaptidão para escolher: prefere ser escolhida. Casa o brinco com o anel. Ou com a pulseira. Mas não suporta a solteirice do colar.

Perde o brinco, para permanecer com a sensação de que está procurando algo. O brinco é um pretexto para não parar de procurar, mesmo quando já encontrou. Ela acredita que pode estar melhor ainda que extremamente feliz. É insaciável na alegria e na tristeza. Quando fica abatida, não admite concorrência. A mulher-brinco emprega a duplicidade, não se agrada em apontar que o namoro "terminou". Abandona o final, preocupada em preservar o início. Deixa para resolver no último minuto. Deixa, na verdade, o último minuto para não resolver. A mulher-brinco esquece do passado com facilidade, preocupada em crescer e amadurecer o quanto antes. Não tem tempo para fazer tempo. Valoriza o rosto como moldura. Tem uma fixação pelos cabelos. O brinco é um jeito de diminuir a orelha ou aumentá-la. O brinco não está lá por acaso e acidente. É uma tatuagem do queixo. Nas relações amorosas, não permanece muitos anos. Encontra um jeito de fugir sem dar na vista. Dá o fora e disfarça que recebeu.

A mulher-brinco odeia sua solidão. Odeia não contar com testemunhas. Odeia viver para não contar o que viveu. Seu porta-jóias é um emaranhado de fios e de pares trocados. O porta-jóias é o resumo do seu quarto na infância. Demora um tempo para escolher o que colocar, para reparar nas jóias que não a interessava. Recusa a insônia, que afeta sua pele com olheiras, covas e maledicências. A mulher-brinco observa o sono com luxúria. Seu mau-humor depende de como se acorda. Compra tapetes ralos, para facilitar a localização de objetos. Pinta as unhas com misturinha, para não atrair atenção sobre os movimentos das mãos.

Impõe-se na troca rápida de assunto. Mente como experiência. Mente para dominar assuntos que desconhece. Mente para conhecer. É ardilosa e faz com freqüência testes e jogos com seus parceiros. Quer se ver desafiada. A mulher-brinco deseja a cômoda livre para se espalhar. Metódica em sua confusão. Nunca conhece direito onde colocou sua vida.

A mulher-colar e a mulher-brinco podem coexistir numa única mulher. Mas somente uma delas surgirá diante de um homem.

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